
É quase meia noite. Os minutos passam dolentemente, enquanto me agarro às réstias de uma liberdade emprestada, dando por mim a reflectir sobre o que há de caótico na minha vida e sobre a velha história de Platão da meia laranja. A ideia de que algures no mundo, seja na China, seja em Nova Iorque, seja no Cazaquistão, está a nossa cara metade. A nossa meia laranja. A nossa alma gémea. Não é algo que se encontre no supermercado ou num excelente centro comercial como o Colombo e as amoreiras. É algo transcendente.
Contudo, os psicólogos dizem outra coisa que vem contrariar este mito ilógico, muito à conto de fadas para adolescentes sonhadoras, crianças ou qualquer pessoa que veja nisso uma espécie de magia aconchegante. A teoria é a de que não há uma alma gémea, há várias. No mundo podemos ser muito felizes com uns milhares de seres humanos, felizes com outros, ter uma relação equilibrada com uns quantos e, assim sucessivamente.
No entanto, se é tão simples, porque será que 30% da população feminina é solteira? Porque será que é tão difícil encaixarmo-nos em alguém? Será que esses milhares se perderam, no entretanto, aniquilados por qualquer mal anti-caras-metade?
Alguém disse que nós, seres humanos, temos o dom de criar protótipos daqueles com quem achamos que devíamos estar e, que, de certo modo, acabamos gerindo as nossas relações nessa base. Procuramos princípes de contos de fadas que não existem.
Ao longo da nossa infância, somos levadas a acreditar na pura e inexplicável magia do amor, na beleza do amar perdidamente, no magnífico morrer por amor... Nos contos de fadas, ninguém nos conta como realmente era a relação deles, a relação perfeita. Apenas sabemos que vivem felizes para sempre num castelo de marfim. Não nos dão indicações de como agir. Nada. Tudo o que sabemos é que acabam felizes. Apenas isso. Persiste a dúvida de como a Cinderela conseguiu manter o casamento, como a Bela suportou o mau feitio do Monstro ou como a Branca de Neve aguentou as futilidades do seu amor. Persiste a dúvida.
A realidade é diferente. Somos confrontados com princípes que não são mais que meros mortais disfarçados de realeza. Princípes que chegam meia hora atrasados ao cinema, que nos deixam à espera que se entreguem, que nos magoam repetidas vezes. Princípes sem cavalos brancos ou espadas em punho. Princípes que não vão cortar heras para nos salvar de um sono eterno. Não, não existem. Não vão existir. Podemos amar, podemos sofrer, mas por mais que doa ninguém nos vai salvar, ninguém que amemos nos vai proteger do frio da noite. Nenhum princípe vai dar mais que um pedaço de si, o resquício do que desejávamos receber.
Temos que nos levantar por nós próprias. Acordar e cortar as heras, lutar contra bruxas malvadas e ogres, porque ninguém é mais poderoso, mais capaz, mais herói do que nós, do que o "eu" que cuida de nós. Não há donzelas em apuros com jovens valentes que as vão tirar das torres. A Rapunzel dos nossos dias teria de atar um lençol à sua cama, cortar o seu cabelo, fugir sozinha. A verdade é que, como diria Anne Rice, " in the end, we're all alone."
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